Tudo em nome do progresso...

 


Tibau do Sul é considerada por muitos um lugar paradisíaco que por anos atrai turistas de todos os lugares do mundo por conta de suas belezas naturais, tranquilidade e qualidade de vida... Bem, pelo menos era pra ser assim.

A exploração comercial do lugar começou no final dos anos 80 com os moradores nativos que, no começo, vendiam seus terrenos a moradores de fora que eram atraídos pelo lugar. Aos poucos, esses novos moradores foram vendendo seus empreendimentos para outros moradores e assim sucessivamente até que houve uma explosão imobiliária por volta dos anos 2000, quando a demanda pegou forte por conta dos holandeses e portugueses (ironicamente a mesma nacionalidade dos primeiros moradores do velho mundo na região) que decidiram investir no lugar. 

Só que algo chateava muito os investidores de fora: As leis da cidade, que eram "chatas demais", afastando empreendimentos de pontos estratégicos da cidade e que eram um verdadeiro "pé no saco" de quem ia investir e dos intermediários que ficavam na cola dos investidores para garantir um trocadinho extra no final do expediente...

Foi ai que, misteriosamente, por volta do final da primeira década dos anos 2000, as leis da cidade passaram por uma transformação; O novo plano diretor diminuiu drasticamente as áreas de preservação ambiental, uso sustentável e livre utilização. da cidade... Dai pra frente, surgiram obras estranhas como a construção de uma casa em cima do principal ponto turístico do centro de Tibau do Sul, o que gerou muito protesto na época e os primeiros movimentos desse autor aqui pela internet, e logo surgiram outros tantos dizendo que "estava tudo legalizado" e que os revoltosos só queriam "barrar o progresso" e enquanto isso, as tão peculiares dunas da praia que desciam da falésia até a praia de Tibau do Sul, foram cortadas por muros e cobertas por uma belíssima grama verde e a vista mais importante ta cidade, privatizada. 

Hoje, quem vai na praia de Tibau do Sul não imagina que há alguns anos atras, haviam um mirante onde as as famílias iam para esperar os barcos chegando dos longos períodos de pesca no mar além de  dunas e um belo areal que foram totalmente destruído pelo "progresso". Faltou sensibilidade por parte dos gestores e dos legisladores para entender que esses pontos eram uma característica importantissima na identidade cultural da cidade. A culpa não foi de quem comprou, muito menos de quem vendeu mas sim de quem permitiu essa negociação.

Dunas da praia do Giz no centro de Tibau do Sul sendo cortadas para a construção de muros...

Vista do alto da praia do Giz

Vista da praia do centro de Tibau do Sul a partir da do mirante chamado "barreira".

Após o encerramento dos voos charters que traziam esse novo publico para a cidade, iniciou-se uma nova mudança de perfil do setor turístico, o surgimento de sites de compras coletivas e portais de hotelaria como booking.com que transformaram novamente o lugar criando uma verdadeira "redescoberta" do turismo regional.

Não que os empresários locais quisessem trabalhar com o publico brasileiro, eles simplesmente se viram obrigados a isso. Por volta do inicio da segunda década do século XXI, o cenário político-econômico do país afastou os turistas estrangeiros que não viram mais tanta vantagem mais em investir num país com o cambio EURO/REAL e DOLAR/REAL baixos.

A essa altura, muitos dos locais preciosos da cidade, que caracterizavam o lugar, foram vendidos. A tradicional barreira, o areal da praia, o porto, o alto do cruzeiro em Pipa, o Chapadão de Pipa...  que sofreu uma decréscimo de pelo menos 25% em seu tamanho, várias áreas verdes das matas de Pipa que foram sendo invadidas e tomadas por posseiros... Todos queriam vender terras paras os gringos a preço de ouro, quem vendeu vendeu e ganhou bastante dinheiro com isso. Muitos desses terrenos estão até hoje parados ou embargados por orgãos ambientais. (que parecem trabalhar de forma bastante seletiva por sinal)

Chapadão entre 2002 e 2012...

O Turismo local, as promoções e o excesso de leitos na cidade, bem como a reforma da BR101 e a construção de um "atalho" aproximaram Pipa ainda mais do turismo regional e do resto do país. Por volta dos anos 201x, Pipa começou a sediar grandes eventos com cantores e bandas de renome como Lulu Santos, O Rappa logo depois Wesley Safadão, Aviões do Forró entre outros, e isso foi mudando a imagem de Pipa na cabeça do turista que, até então, pensava que Pipa era um destino de "bichos grilo" e pessoal alternativas que não curtem muito luxo e coisas sofisticadas. 

Então, nesse momento, os olhos dos empreiteiros, viu em Pipa abertura pra construir coisas grandes, do tamanho dos eventos que a "pequena vila de hippies dos anos 70 começou a sediar. Foi ai que começaram a surgir condomínios grandes, protestos por cortes de matas, destruição de áreas verdes urbanas e, paralelamente, mais leitos e mais pessoas querendo vir morar na cidade em busca de empregos e oportunidades e os hotéis e pousadas começaram a concorrer com pessoas comuns alugando suas casas por sites como Airbnb e condomínios com pool hoteleiro... 

A febre foi, e ainda é tanta que é difícil até encontrar casas para alugar. Os donos de imóveis passaram a preferir alugar seus imóveis por temporada ou por final de semana do que mensalmente. Isso causou outros problemas como o surgimento exponencial daquilo que os estudiosos chamam de "favela" com tudo que diz respeito, incluisive o tal "governo paralelo"...

Processo de "urbanização" da pipa entre 2002 e 2023


Atualmente estamos em mais um momento em que o "progresso" ataca novamente... Uma nova formula que surgiu na região no final da segunda década do século XXI chegou na região. A Multi Propriedade... Mais uma vez, o Chapadão de Pipa, que é uma área importante na caracterização do lugar e na formação da identidade da cidade, sofre um ataque... Não que esse seja mais ou menos grave do que os ataque anteriores porém, o que vem chamando atenção é a antipatia que a empresa responsável pelo empreendimento vem causando na cidade com seu marketing extremamente agressivo e contrapartidas sociais no mínimo controvérsias.

A população, assim como tantas outras vezes, foi la no chapadão, mostrou sua indignação e teve como resposta uma audiência onde a tal empresa vai apresentar seu projeto para a população e tentar convencer a todos de que não tem culpa de nada... E, quer saber a real? Ela não tem mesmo culpa de nada! Quem tem culpa na verdade somos nós, que reclamamos quando vemos algo errado mas, sequer fazemos o esforço de transferir nosso titulo de eleitor para escolher os representantes da cidade em que moramos. Protestar é valido mas, protestar sem saber pelo menos o nome do prefeito da cidade em que vive é meio complicado.

Quantos de nós, vindos de outras cidades em busca de um lugar melhor para viver, decidimos transferir o título de eleitor e votar em Pipa ou em Tibau do Sul?  E quer saber mais? Quantos de nós realmente se importa com o Chapadão ou qualquer outro lugar importante desta cidade? Será que estamos dispostos a abrir mão de nossos benefícios que nos chegam através dessas coisas que tanto combatemos em prol de um bem estar coletivo?

Há alguns dias estava conversando com um conhecido que possui um apartamento na cidade. Nos sentamos e começamos a conversar quando de repente, cumprimentei um ex-prefeito da história recente da cidade. Meu amigo virou pra mim e me perguntou: "quem é aquele?". Eu respondi educadamente mas, na minha cabeça veio a pergunta. Como alguém que tem um apartamento aqui, não sabe quem foi o ex-prefeito? A verdade é que essas pessoas não se importam com Pipa. Se importam apenas com o dinheiro e os benefícios que ela os dá. 

Pois bem, a Multipropriedade veio pra ficar. É um modelo já utilizado com sucesso lá fora e não tem como parar isso agora. Vamos ter mais proprietários, múltiplos proprietários de apartamentos para chamar Pipa de sua... Essas pessoas possivelmente vão querer alugar seus "quase imóveis" quando não puderem usufruir e mais concorrência para os cafofos, casas do airbnb, pousadas, hostels, e hotéis surgirão. Este que vos escreve esta plenamente convencido de que a formula vai funcionar tão bem que alguns dos donos de quartinhos pra alugar também vão querer vender uma parcela de seus imóveis pra multiproprietários em vez de alugar mensalmente ou vender em definitivo. O importante é surfar na onda do progresso...


OBS: O texto acima contém ironia. 

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